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O amor possessivo dos mortos e dos vivos

3 de Setembro de 2010


Em um filme estranho e fascinante, “Jennie”, o pintor se apaixona por uma menina-moça que aparece e desaparece sem que ele saiba de onde veio e nem para onde vai. O mais intrigante é que a cada aparição ela está mais velha. Após perpetuar a beleza de Jennie num quadro, o pintor fica sabendo que ela morreu há muito tempo – e não voltará a encontrá-la.

O RETRATO DE VALENTINA
A relação entre Valentina e Viviane, ambas interpretadas por Nathalia Dill, começa através do retrato que Ricardo (Humberto Martins) contempla na tela do computador. A semelhaça física entre ambas deixa o médico intrigado. A coincidência, também: Valentina norreu aos 26 anos de idade, em Toledo, Espanha, em 1839 – Viviane também está com 26 anos.

O TRIÂNGULO DA MORTE
Valentina e Viviane são a mesma pessoa. Por causa dela, na última encarnação, Ricardo, que era o seu marido, foi morto em duelo de espada. Daniel, que havia retornado para se redimir do seu pecado, foi quem o matou.
E, novamente, movido pelo amor possessivo, Daniel, agora na condição de espírito, está usando poderes malignos para voltar a matar Ricardoo pai adotivo que o amava. O ódio dele advém do ciúme, e, mesmo pós-morte, este ciúme persiste. Por não ter evoluído espiritualmente, Daniel acha-se sob a influência das emoções e fraquezas humanas - e das maldades, também.

A SERVIDÃO AMOROSA
Em Escrito nas Estrelas, sobrevivendo além da vida, a paixão aprisiona a alma de Daniel, provocando sofrimentos entre os mortos e os vivos.
Em Passione, Totó (Tony Ramos), vítima da cegueira da paixão, sofre as humilhações e as dores dos anti-heróis do expressionismo alemão e do filme noir americano dos anos 40. Em ambos personagens, Daniel e Totó, o amor foi a perdição.

O VILÃO E A VÍTIMA
Mas entre Daniel e Totó existe uma diferença fundamental. O primeiro age como vilão. O segundo é vítima. Entre as heroínas, também existem diferenças. Viviane não é má. Clara (Mariana Ximenes) é a encarnação do Mal.
No final de “Um Retrato de Mulher”, Edward G. Robinson foge do quadro da mulher que o seduziu. Totó comunica a mãe, Bete (Fernanda Montenegro), que se libertou de Clara e que ela será entregue a justiça. Apesar de saber que ela não presta e que jamais gostou dele, Totó senta-se na cadeira e fica contemplando o corpo adormecido da esposa – é a chama do poder da carne que ainda não se extinguiu no seu coração e na sua mente.

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Passione - Fernanda & Aracy

31 de Agosto de 2010


DESTAQUE – O encontro entre Bete Gouveia (Fernanda Montenegro - foto) e Gemma (Aracy Balabanian - foto) figura entre os momentos altos da interpretação do elenco de Passione. A hostilidade de Gemma que existe em relação à Bete, cedeu lugar a aliança entre as duas para salvar Totó (Tony Ramos) da esposa ladra e adúltera.
TOM CERTO – Houve um equilíbrio harmônico entre Fernanda e Aracy Balabanian. Nenhuma das duas usou truques de interpretação para “roubar” a cena. Nada disso. São duas profissionais de primeira categoria. Ambas compondo com perfeição as personagens. Entre as duas, Tony Ramos, chocado com as revelações sobre Clara (Mariana Ximenes), esteve correto, sem jamais extrapolar os limites exigidos pela situação e a perplexidade de Totó.
Em papel feito sob encomenda por Silvio de Abreu, Fernanda Montenegro esta tendo o seu melhor desempenho na televisão, inclusive, à altura das interpretações cinematográficas.

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Passione - A paixão proibida da Bela da Tarde

31 de Agosto de 2010


Nos primeiros capítulos de Passione, Stela (Maitê Proença - foto) ir para a cama – sempre uma única vez – com os garotões escolhidos nas suas caçadas diurnas. Personagem inspirada na protagonista do filme “A Bela da Tarde”, papel erotizado por Catharine Deneuve, Stela teve a sua conduta sexual modificada por Silvio de Abreu: a heroína de Luis Bunuel dava vazão às fantasias eróticas trocando a identidade de esposa pela de prostituta.

O PRAZER DA CARNE
Outro ponto de contato entre as duas sedutoras heroínas: o prazer sexual sem amor. Inexistia compromisso ou afetuosidade na Bela da Tarde de Catharine Deneuve – o mesmo acontecia com a Bela da Tarde de Maitê Proença.
Mas ao se apaixonar pelo italiano Agnello (Daniel de Oliveira- foto)), Stela passou por uma inesperada mutação amorosa, deixando de ser de todos para ser de um único homem, enquanto, tematicamente, saia do universo de Luis Bunuel.

O DESCARTE DO AMOR
Há muito o casamento de Stela com Saulo (Werner Schünemann) transformou-se na massacrante lua de fel da infelicidade. Apesar de haver redescoberto o amor, Stela, como costuma ocorrer na vida real, fez a opção pragmática, colocando a cabeça acima do coração. O casamento lhe permite ter o conforto do dinheiro e a despreocupação de não ter de ganhar a vida trabalhando.
Ela tirou Agnello de sua vida, mas não conseguiu apagá-lo da memória, e, por ter se apaixonado, deixou de sentir o prazer que sentia quando era a Bela da Tarde.

O TRIÂNGULO AMOROSO
Entre as variações dos triângulos amorosos, o mais complexo é o formado por mãe, filha e o homem amado por ambas. Silvio de Abreu surpreendeu a reintroduzir Agnello na vida de Stela como namorado de sua filha. Ao expulsar o jovem amante italiano de sua vida amorosa, ironicamente Stela possibilitou o romance dele com Lorena (Tammy Di Calafiori).
Com essa reviravolta neste núcleo da história, Passione começou a romper a ação circular que como costuma ocorrer nas novelas, estava aprisionando a narrativa. Silvio de Abreu introduzir em cena o chamado suspense amoroso, suscitando a curiosidade do telespectador: o que acontecerá daqui para frente? (Publicado na Tribuna do Norte, em 28.08.2010)

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O espírito, o amor, o ciúme

30 de Agosto de 2010


Com a ação localizada em dois planos, no real e no espiritual, Escrito nas Estrelas está desenvolvendo uma fascinante relação entre vivos e mortos. Além disso, ainda existe o reencontro de vidas passadas na atual reencarnação.

Emoções pós-morte
No dia em que morreu, Daniel (Jayme Matarazzo - foto ) conheceu Vitória (Nathalia Dill - foto ), e, subitamente, viu-se tomado por forte atração pela fugitiva favelada. Por ainda se achar preso as emoções terrestres, no campo espiritual este amor floresceu, aumentando a sua revolta por ter precocemente morrido.
As frequentes vindas de Daniel à Terra, acompanhado do seu Anjo da Guarda, Seth (Alexandre Rodrigues), é um recurso ficcional que possibilita a sua coorporificação visual. O seu amor por Vitória/Viviane é um sentimento que persistirá enquanto Daniel não se libertar dos laços e das emoções terrenas.

O confronto pai e filho
Não importa que Daniel – embora essa revelação lhe seja emocionalmente aflitiva – tenha sido gerado pela mãe, Francisca (Cassia Kiss - foto), fora do matrimonio. Para Daniel, Ricardo (Humberto Martins), é o seu verdadeiro pai, mas o desencontro que havia entre ambos estava relacionado com algo acontecido em outra encarnação.
Esse antagonismo, agora existente apenas por parte de Daniel, tem dupla origem: a da vida anterior entre ambos é atualmente alimentada pelo ciúme crescente de saber que o pai está apaixonado pela mulher (Viviane) que ele continua amando, no plano espiritual.

O novo reencontro
Pouco a pouco, Elizabeth Jhil foi revelando o que se passou em Toledo, Espanha, entre Ricardo e Viviane. Já sabemos que foram casados, eram felizes, mas que ela, então chamada Valentina, morreu, precocemente, aos 26 anos, ao dar a luz ao filho do casal.
A despeito das evidências corporificadas em sonhos e flashes da memória espiritual regressiva, Ricardo, que é cético e cerebral, não acredita que esteja sendo aprisionado pelo passado.

O suspense romântico
Não é por mera coincidência que Viviane completou 26 anos às vésperas da consumação da gravidez pós-morte de Daniel. Com essa coincidência, surge a dúvida: o que lhe acontecerá agora?
Por sua vez, Ricardo, embora esteja apaixonado pela nova Valentina, acredita que se libertará desse amor casando-se com Jane (Gisele Fróes).
Ricardo é o personagem mais complexo da novela – e, em sóbria composição, contenção gestual e verbal, Humberto Martins (foto) está tendo excelente interpretação. (Publicado na TV Revista da Tribuna do Norte em 29.08.2010).

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Passione – cumplicidade perigosa

27 de Agosto de 2010


Droga é coisa séria demais para ser sentimentalizada em novelas. Danilo (Cauã Reymond)(foto), como os drogados da vida real, é 100% inconfiável. Jamais será curado sem assistência médica. Tornou-se uma ameaça à família, aos amigos, à sociedade. Danilo não tem consideração por ninguém. Agrediu, roubou o tio (Gerson / Marcelo Anthony) e fugiu com o carro dele. Já é ladrão e amanhã poderá matar.
Não se justifica portanto, que em nome do amor materno, Stela (Maitê Proença), que não é ignorante nem é idiotizada, se deixe iludir pelo filho, depois de tudo o que ele já fez. E mais grave, ainda, acredita que possa curá-lo no conforto do lar.

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PASSIONE – Destaques

24 de Agosto de 2010


FERNANDA & MARIANA – No capítulo de ontem, segunda-feira (23), o retorno triunfal de Clara (Mariana Ximenes) a casa de Bete Gouveia (Fernanda Montenegro - foto), como esposa de Totó (Tony Ramos), foi à grande sequencia de Passione. Tivemos um show de interpretação no confronto entre Bete e Clara. Controlada, sem jamais elevar a voz, Fernanda Montenegro deu vazão a fúria de Bete através da agressividade verbal.
Fria e cínica, e também sem se descontrolar, Mariana Ximenes alcançou o clímax ao tirar a capa do vestido vermelho e colante, mostrando porque o filho de Bete era escravo do seu corpo. Com uma interpretação mutante, que se modifica de acordo com a situação vivida por Clara, Mariana Ximenes(foto) contracenou de igual para igual com a grande Fernanda Montenegro.
Merece ser destacado nesta sequencia o constrangimento de Totó ao ver o mal estar causado à família Gouveia por Clara. Ótimo momento da boa interpretação de Tony Ramos.

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A volta da velha senhora

24 de Agosto de 2010


Uma artista merece ser aplaudida pelo talento – e também pelo seu profissionalismo. Cleyde Yáconis (foto) merece ser aplaudida de pé pelas duas coisas. Depois da cirurgia no fêmur, quebrado numa queda caseira, reapareceu em Passione numa cadeira de rodas.
Com o desconforto físico e as dores acobertadas, Cleyde Yáconis está atuando como se nada tivesse acontecido. É a vitória da força de vontade contra a adversidade.

A vitória do talento
Apesar da imobilidade e com a atuação física limitada à cadeira, Cleyde Yáconis, que vinha tendo memorável interpretação, não permitiu que a rasteira da vida prejudicasse a sua expressividade artística. A velha Brigida continua a mesma – assim como o nível da sua atuação.

A solução ficcional
Às vezes é a vida que imita a arte. Em Passione foi à ficção quem imitou a realidade. A solução encontrada por Silvio de Abreu foi a melhor das opções: a incorporação da limitação física da atriz a personagem. Aplausos para Silvio de Abreu, por não ter afastado Cleyde Yáconis da novela.

A dupla perfeita
Assim como não se poderia separar a dupla de O Gordo e o Magro, ou Bud Abott de Lou Costello, também existem personagens que são inseparáveis. Em Passione, isto ocorre em relação a Leonardo Villar & Cleyde Yáconis. Se a integração física e psicológica de Brigida e Cleyde é perfeita, igualmente perfeita é a fusão de Antero com o Leonardo Villar.
O mesmo pode ser dito em relação à integração artística da dupla. Silvio de Abreu captou, suavizada pela ótica humorística, as eternas briguinhas e reclamações dos velhos casais. Mas para funcionar, como esta funcionando, a criatividade do papel necessitava de dois intérpretes 100% ajustados ao perfil do casal.

A contribuição da dupla
A diferença de temperamento e de conduta do casal se reflete na composição dos personagens. Brigida é ativa, Antero é passivo. Nos cochilos diante da televisão e nos esquecimentos, Antero retrata com sutileza e discrição a conduta dos anciões da vida cotidiana. Se a sua senilidade é mais aparente do que real – o seu gestual, porém, é de um velho.
A Brigida de Cleyde Yáconis, se fisicamente exterioriza a lentidão da velhice, mentalmente é elétrica. Com suas observações ferinas, é uma velha senhora da aristocracia paulista, guardiã da moral e dos velhos costumes. Poderia ser uma vilã, mas, acobertada pelo humor, não transmite a crueldade das velhas de coração de pedra.
Se Cleyde Yáconis não tivesse voltado, Leonardo Villar, artisticamente, teria ficado órfão, enquanto o telespectador sofreria dupla perda artística.

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Passione - O que acontecerá com Clara?

23 de Agosto de 2010


O autor de Passione, Silvio de Abreu, está sendo pressionado para salvar Clara (Mariana Ximenes) (foto) do castigo que merece. É improvável, se ele permanecer fiel à tradição cinematográfica, que Clara deixe de pagar pelo que fez e ainda fará.
Mas por que uma personagem moralmente inescrupulosa e pessoalmente escrota, não caiu em desgraça perante o público?
Sinal da decadência dos novos tempos e dos exemplos da vida real? Pode ser.

A FEIÚRA DA MALDADE
O telespectador comum tende a confundir o personagem com o intérprete. A atriz Daisy foi agredida verbalmente em um supermercado carioca por uma furiosa telespectadora: “Você deveria estar na cadeia”.
Esse tipo de reação costuma ocorrer entre as vilãs das novelas. Para que isso aconteça porém é preciso que a maldade da atriz seja tão convincente que se confunda com uma pessoa real. A velha Valentina, a avó da indefesa Kelly (Carol Machado), é uma mulher repulsiva. Mas ser vila no papel não basta, é indispensável que na sua corporificação haja uma atriz vivendo uma grande interpretação, como está acontecendo com Daisy Lúcidi.

A MALDADE DA BELEZA
Clara não é uma personagem fisicamente repulsiva, mas moralmente é igualmente repulsiva como Valentina. Sua alma gêmea é Fred (Reynaldo Gianecchini). Ambos fazem qualquer coisa por dinheiro. Ambos usam a atração da juventude e a sedução da beleza para alcançar os objetivos.
Embora a estranha e sensual Melina (Mayana Moura) seja a reencarnação física da atriz Louise Brooks, a personalidade maligna da heroína de “A Caixa de Pandora” foi deslocada por Silvio de Abreu para Clara – é ela quem simboliza a maldade liberada pelos Deuses.

A  SEDUÇÃO DA ATRIZ
Se Clara é falsa, traidora, ladra, fria, calculista, impiedosa, por que há quem queira livrá-la do castigo? O fato de ela ter tido uma infância infeliz e haver se prostituído precocemente por imposição da avó (Valentina), não é suficiente para transformá-la no que é.
Clara a feia por dentro. Ela é má por natureza, como o escorpião da fabula da rã. A sua crueldade vai além da de Fred, pois, ao contrário deste, não se limita à chantagem, é capaz de matar. Atentou contra a vida do marido, Totó (Tony Ramos), que, cego pela paixão da carne, não viu, ou não quer ver, a infidelidade da esposa e as suas manobras para  fazê-lo pensar que Gemma (Aracy Balabanian) está senil.
Clara é uma femme fatale mais nociva e ainda mais impiedosa do que a Lola Lola de “O Anjo Azul”.

BELEZA E COMPETÊNCIA
O charme pessoal de Mariana Ximenes é o principal responsável pela benevolência popular em relação à Clara. Clara é a encarnação do Anjo da Maldade, enquanto Mariana Ximenes, a atriz, acoberta com sua beleza e competência artística o mau caráter da personagem.
Existe outra explicação para que não se queira que Clara seja castigada? Se existe outra justificativa, talvez Freud possa responder.

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PASSIONE - Está chegando a hora do crime

17 de Agosto de 2010


São muitos os conflitos de Passione. Apesar disso, a história entrou no imobilismo da fase circular. Ou seja: as situações, tantas as dramáticas como as humorísticas, estão se repetindo. É inevitável que isso aconteça nas novelas. O problema é como fazer a história avançar. A solução, quase sempre, é recorrer ao que o escritor Raymond Chandler recomendava: “Faça o detetive abrir a porta…”

A PORTA FECHADA

Com as repetições das paixões, ódios, ciúmes, do sexo humorístico, chegou a hora de Silvio de Abreu abrir a porta, para que a trama policial entre em cena e algo novo surja diante dos olhos do telespectador.
Alguém deverá matar alguém. Mas quem irá morrer? Isso logo saberemos. Possivelmente, como aconteceu, em “Celebridade”, teremos um cadáver e vários suspeitos.

A DESAGREÇÃO FAMILIAR

No cinema italiano, base de inspiração para o núcleo protagonizado por Tony Ramos (Totó), o tema da desagreção familiar foi abordado em célebre filme de Luchino Visconti: “Rocco e Seus Irmãos”. Ela ocorreu quando a família mudou-se para outra cidade. Silvio de Abreu optou por outra variante temática, trazendo de fora e de outro país (Brasil), o elemento deagregador.
Clara (Mariana Ximenes - foto), a nova femme fatale, usando o poder de sedução da beleza e da juventude, exerce o papel do anjo do Mal – no sentido bíblico e humano. Totó (Tony Ramos), como tantos personagens da ficção e da realidade, vítima da cegueira da paixão crepuscular, não aceita, apesar das evidências, que o objeto do seu amor seja quem é.

A DÚVIDA E A CERTEZA

Com adequação física e sensibilidade artística, Mariana Ximenes está conquistando lugar de destaque entre as grandes vilãs das novelas. Se no filme “Eu Te Matarei, Querida”, adaptação do romance “Minha Prima Rachel”, de Daphone du Marier, o amor gera a dúvida sobre a culpabilidade da heroína, em Passione inexiste dúvida: Clara quis – e ainda que – matar o marido.

O GOLPE DA LOUCURA

Para a parte em que Clara atribui a Gemma (Aracy Balabarian) mudando objetos dos lugares, deixando o gás do fogão ligado, etc. – os lapsos de memória da senilidade, Silvio de Abreu inspirou-se na excelente versão americana de “À Meia Luz” (Gaslight / 1944), dirigida por Goerge Cukor na MGM.
No filme, Charles Boyer era o marido que atemorizava a esposa (Ingrid Bergman) fazendo-a pensar que estava enlouquecendo. Na novela, Clara, ocupando o lugar de Boyer, usa o mesmo truque para afastar Gemma de casa, permitindo que tente matar o marido.

E AGORA?

Com a vinda de Totó (Tony Ramos - Foto) e Gemma para o Brasil, “Passione” deverá romper a ação circular e repetitiva, gerando novas situações e renovando a curiosidade do telespectador. A conduta de dois personagens merecerá especial atenção: Clara e Fred (Reynaldo Gianecchini) – para ambos, Totó representa ameaça.

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A CURA – Entre a realidade e o sobrenatural

12 de Agosto de 2010


A série não está sujeita a saturação de repetições das novelas. Outra vantagem: a história, como no cinema, já esta pronta quando começa a ser gravada. Em relação a série americana, o formato da Globo tem uma desvantagem: a limitação dos capítulos. “Na Forma da Lei”, por exemplo, terminou antes do tempo, superficializando o que poderia ter sido aprofundado e melhor explorado.

A DIFERENÇA

Se a história é o ponto de partida para qualquer filme, o mesmo se pode dizer em relação às séries. O que está no papel (roteiro) é o que se verá na tela. No cinema quando o diretor era um John Ford, um Fritz Lang, a atmosfera da visualização era capaz de neutralizar e compensar a fragilidade ou os clichês da história.
Na televisão, não. O ritmo industrial não permite que a direção atinja o nível da criatividade cinematográfica. Salvo exceções, o diretor limita-se a ilustrar artesanalmente o roteiro.

A AUTORIA

Já que a autoria da série é mais dos escritores do que dos diretores, a responsabilidade maior em A Cura cai sobre João Emanuel Carneiro e Marcos Bernstein. O primeiro, está associado a uma novela de sucesso: “A Favorita”. O outro, é autor de um filme que é muito melhor do que a crítica carioca achou: “O Outro Lado da Rua”, com Fernanda Montenegro e Raul Cortez.
A história de “A Cura” nasceu sob o signo da competência de dois autores de talento comprovado.

A TEMÁTICA

A história de “A Cura”, situada em Diamantina, em duas épocas diferentes, está em sintonia com a temática espiritualista, cuja aceitabilidade popular transformou um modesto filme, “Bezerra de Menezes”, em inesperado sucesso de bilheteria. A vertente seria ampliada por “Chico Xavier”.
A história de um médico, herdeiro da fama e dos poderes sobrenaturais de outro médico já morto, sepultado pela religiosidade católica mineira e odiado por uma sociedade provinciana e fofoqueira, ajusta-se à visão espiritualista daqueles dois filmes.

A PRIMEIRA IMPRESSÃO

“A Cura” terá apenas nove capítulos, um por semana, sempre às terças, mas somente depois de Planeta Casseta – pena que a Globo faça um bom produto e não acredite nele, jogando-o para o final da noite, quando a audiência é decrescente.
Ao contrário de um programa humorístico, a ficção exige especial atenção do telespectador, isto é, mente alerta, sem o entorpecimento do cansaço físico. O que, diga-se, não é fácil depois um dia de trabalho.
Feita a ressalva das limitações impostas pelo horário, pode-se adiantar, pela impressão do capítulo de estréia, que “A Cura” merece ser vista. De saída, vale ressaltar que as locações onde a história se passa (a cidade de Diamantina-MG), deram uma autenticidade ambiental que dificilmente seria alcançada na reconstituição em estúdios.
Quanto ao elenco, peça tão importante como a história, a escolha de Selton Melo (foto) (Dr. Dimas – personagem atormentado por causa de uma morte ocorrida na infância) mostrou-se acertada em relação à atuação e a credibilidade do seu complexo papel.

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